20090418

Fanzines

Fanzines... Ah! As publicações independentes que dão vazão a criatividade, seja ela underground, pedante ou pura e simplesmente copiativa. Eu gosto de chamar pelo nome completo, zine soa meio abreviado demais pra mim, questão de gosto.

Mas então, eu já fiz minha carreira como editor-escritor-entregador de alguns e resolvi contar a historinha deles, pelo menos dos que eu me lembro... O primeiro "oficialmente" foi o Poemz & Devassidão, título que até hoje não lembro bem por que coloquei, mas achava que ficava legal. O z no final de Poemz tinha um sentido, tinha ver com as coisas warez da internet. Esse era de poesias/poemas e textinhos. Era pequeno, meia folha de A4 formando 4 páginas, lembro que deu um trabalhão configurar a impressora no Word (naquele tempo eu não usava o Corel) e por cerca de 20 números me deu muita satisfação. Eu tinha um prazer danado de escrever e fazer aquele fanzininho, variava as fontes, trocava as cores de impressão e sempre escrevia um texto sem espaços, difícil de ler e que muita gente gostava. Uma ex minha adorava, outra era indiferente e uma terceira veio cheia de tecnicismo literário pra criticar ele, mas era meu xodó. Claro que nem todos tinham uma qualidade surpreendente, mas se poesia é como música, que deve ser mais sentida do que analisada, então acho que valia a pena, e muito. Me rendeu até uma música, adaptada pela Platinados quando ainda existia. Lembro que o Clóvis veio me perguntar se estava tudo bem usar como letra e fazer um refrão, eu nem acreditei hehehe. Outra coisa legal foi que eu sempre dava esse fanzine, vez por outra se alguém queria pagar eu cobrava tipo 25 centavos. Aí uma vez eu ganhei vários fanzines de graça, fanzines de quadrinho muito bons. Eu estava olhando e perguntei quanto era (por que os fanzines de quadrinho dão realmente um trabalhão pra fazer) e então o autor simplesmente disse: "Não é nada não. Isso aí é por conta das trocas!"

Esse foi demais. Eu simplesmente adorava fazer o bichinho, me rendeu tanta coisa boa... E era tão sincero. Teve até um número especial que eu fiz à mão, só 10 unidades, dei pros leitores mais assíduos. É legal isso, sabe, compartilhar coisas com que você sabe que gosta. Sempre dizem que a gente tem que dar ouvidos pros críticos, mas que saco, é muito peba ficar ouvindo "você não faz isso e aquilo outro, isso não se enquadra, ble ble ble" Quem é que gosta de ser criticado o tempo todo? Anyway, estou até pensando em revisitá-lo aqui neste espaço virtual.

Outro que eu fiz que nem era bem um fanzine era O Clube do Pentagrama. Era só pra um pessoal com quem eu jogava RPG, cheio de piadas internas e referências aos péssimos editores da Dragão Brasil da época, nem sei se a revista ainda existe. Esse era bem divertido fazer, um folha de A4 frente e costas e eu entregava pra todo mundo. Tempos depois soube que esse fanzine foi parar bem longe desse círculo em particular e ficou conhecido por umas pessoas que eu nem sabia quem eram, fui conhêce-los alguns anos depois. Rendeu muitas risadas e telefonemas engraçados. Sem contar nas amizades.

Teve então o Neo, sobre música e filmes, acho que esse foi o mais recente... Não sei quantos números escrevi, tenho que procurar nos meus velhos arquivos do word. Esse também era interessante, procurei abordar sobre albúns clássicos de bandas indie e filmes bacanas, independente da época de lançamento. Como não durou muito não teve muita repercursão, mas me deu as idéias que eu uso neste blog hoje em dia e é claro, o prazer de escrever. Pra mim realmente é isso que é legal, o kimochi, o feeling de se expressar. Tenho amigos que se preocupam tanto em ser acadêmicos que por vezes eles deixam de usar a excelente sinceridade que eles têm... Alguns eu entendo por que são profissionais da área, outros eu vejo apenas como "metimento a besta sem causa aparente". No geral, repito, tem que ser como música pra mim. Mais vale um Nirvana de 3 notas e sentir a ira de Kurt contra o mundo do que um Sonata Arctica de 1000 notas em que o máximo que você sente é que o guitarrista passou uns bons anos sentado com a guitarra praticando todo dia. (Vão me dizer que isso não tem nada a ver e que bla bla bla, foda-se)

Ah e ainda teve as contribuições! Mas isso é pra outro post... Devo revisitar alguns números dos meus queridos fanzines por aqui logo logo. Cuidem-se!

20090407

Um ano dentro, um fora

Fez um ano, no dia 4 de abril. Na verdade, se eu for caxias e quiser ser bem específico, fez um ano no dia 3 de abril, por volta de 23:30 no horário de Kyoto.

Um ano dentro, um ano fora. Um ano dentro da principal ilha do Japão, na região de Kansai, longe de Tóquio, mas perto de Osaka, mas o mais importante: na cidade mais bonita do Japão (há controvérsias). Semana passada vi pela segunda vez o desabrochar das cerejeiras e senti a alegria do calor da primavera. Agora mesmo minha janela do apartamento no quarto andar está aberta. Por volta de três semanas atrás isso seria impensável... Ainda uso meu cobertor elétrico por que de madrugada bate um friozinho, mas sempre me desvencilho dele durante o sono, quente demais.

E nesse ano dentro vi muitos lugares, vi coisas que nem sabia que existiam e fui a lugares loucos. Participei de dois grandes festivais de rock e vi inúmeras bandas que achava que um dia, com muita sorte, elas viriam ao Brasil e talvez eu tivesse dinheiro pra vê-las. Fui a Hokkaido, a ilha do norte, ainda não fui à Tóquio mas estou me programando.

Acho que as pessoas poderiam perguntar de mim "como é a vida aí?" É um pouco difícil responder isso rápido, depende do que se quer saber. Vou tentar por partes.
Língua japonesa: difícil, nem tanto quanto se pensa, fazem muito terrorismo por aí, mas é preciso disciplina e dedicação, coisa que eu não tenho muito. Se for só pra falar, não é tão complicado, mas se você quiser ler, aí a vaca tosse e a porca torce o rabo. Reaprender a ler, com a diferença de que o novo alfabeto tem por volta de 2000 letras.
Pessoas & sociedade: o ilustre professor Iemoto, um dos melhores da Divisão de Estudantes Estrangeiros da Universidade de Kyoto definiu bem: se um prego está mais alto que os outros, ele é martelado até ficar igual. É difícil para quem vive num ambiente como o de Manaus. É difícil mesmo para os brasileiros mais frios... Eu encontrei gente legal, "normal", mas são raridades. Tem todo tipo de gente, os não-me-toques (isso é meio que consenso, ninguém aperta mão ou se abraça muito), os duas-caras, etc. No geral, é bem difícil saber o que um japonês está pensando, saber se ele é seu amigo mesmo ou não leva um certo tempo. Lados bons e ruins.
Acho que não é fácil absorver outra cultura, mesmo se acostumar. Acho que particularmente, entrei numa fase de respeito e ignorância. Respeito a educação básica, mas ignoro os exageros.

Poderia falar de mais coisas aqui, muito mais. Comida, banheiros (são estranhos), mulherada, etc. Mas ia estender demais e eu quero falar sobre o que é importante pra mim. O ano fora. Um ano fora de MAO, um ano sem ver família, amigos e minhas cadelas. Um ano sem tocar com meus amigos, a banda da qual eu faço parte e que me rendeu momentos pra sempre lembrados (e renderá mais, espero). Algumas coisas parecem fora de hora. Fui padrinho de casamento de um dos casais mais legais que eu conheci, daqueles que você torce para que tudo dê certo pra eles. E a gente se conheceu mais ou menos um ano e meio antes de eu vir pra cá. Também deixei outro casal de amigos do qual sinto falta demais, mas felizmente ainda mantemos os contatos sempre que possível. As pequenas coisinhas que seguram firmemente a ponte da amizade.

Deixei a Dani também, fonte infinita de amor, risadas, briguinhas e brigonas, comilanças, coisas bonitas e uma cumplicidade tremenda. Em inglês tem uma palavra que define bem o que ela foi pra mim: remarkable. Indelével pode ser usado também. As escolhas que a gente faz...

Deixei duas meninas: Petúnia e Penelópe me esperando. Sempre que eu voltava pra casa elas estavam sentadas na escada da frente, de onde pode-se ver a rua. Elas levantavam aquelas orelhas vira-lata e ficavam mirando até ter certeza que aquele transeunte cabeludo era o pai delas e corriam pra garagem pra fazer festa assim que eu entrava em casa. Aqui pra ter um cachorro é caro, tem que ter licença e não pode ser em apartamentos. Kawaisou. Uma pena.

O lado bom é que eu aprendi muito. Falo mais japonês que há um mês atrás e falarei mais ainda no mês que vem. Aprendi a ter mais paciência, a cozinhar melhor e com o que tiver à mão. Aprendi a respeitar a cultura alheia, mesmo que eu não goste e controlar melhor o ódio irracional que às vezes a gente sente por coisas sem sentido. Tive que aprender a ser mais forte. Ainda estou. Acho que ainda estou aprendendo todas essas coisas. E se alguém me perguntasse qual é meu maior medo aqui, em primeiro lugar seria de ficar doente, por que os médicos daqui não sabem tratar de doenças de estrangeiro muito bem. O segundo medo é de ficar ruim, de ser como tanta gente que eu vejo que ficou amargo, azedo com a vida, reclama de tudo, critica tudo e tenta a todo custo consumir as suas esperanças. Mas eu já vi que isso não deve acontecer, pelo menos numa escala grande. E encontrei muita gente legal que me ajuda a ser feliz aqui, que também construiu pontes de amizade comigo, gringos e japoneses. Essas coisas me seguram durante a semana, e na segunda-feira de manhã, a voz da minha mãe e dos meus irmãos no telefone me dá mais um gás pros dias que virão.

Ontem eu fiz 26 anos. Desses, por volta de 23,5 eu passei em Manaus. 1,5 foi viajando, a lazer ou a trabalho. E agora um ano, aqui no Japão. Um ano dentro do Japão. Um ano fora do meu lar.

Falta só um e meio.

20090405

What to do in case of fire?

De 2001, Alemanha. Conta a historia de ex-punks da época em que o muro de Berlim ainda existia que se reencontram por causa de uma bomba caseira feita por eles, que estourou 11 anos depois em uma casa de um bairro chique. Os personagens principais Tim e Hotte, que perdeu as pernas, ainda vivem uma vida de anarquismo, fazendo acoes aqui e acolá contra o sistema, enquanto todos os outros mudaram bastante, apenas pelo problema da bomba eh que eles se reencontram e seus mundos se chocam.

Historia boazinha, mas com muito fantasticismo, se a ideia era ser um drama-acao-com-um-pouco-de-mentira, deu certo, mas eu esperava mais desse filme. Atores médios, produção OK, o que realmente estraga um pouco são as irrealidades (4 quarentões invadindo um QG da policia alemã) e os elementos estranhos a ideia principal do filme, achava que ia se ficar mais nos abismos que se abriram entre os "amigos", mas isso acaba sendo um segundo plano. Não eh drama. Mas pode assistir, se tiver tempo sobrando. :)

20090402

This is England

De 2006, mais um filme que passou despercebido. Ao lado de Uma outra historia americana - com Edward Norton e Skinheads - A forca branca - com aquele cara do Gladiador e Uma mente brilhante, este eh um filme muito bom sobre skinheads. Bom no sentido de mostrar as consequências desse movimento, mas diferente dos outros dois, este eh um pouco menos ficcional, mostra a Inglaterra de 1983, sofrendo as com a guerra nas Falklands

O personagem principal eh Shaun, um garoto de doze anos que perdeu o pai na guerra e constante alvo de gozacao na escola, caso clássico. Ele encontra um dia a turma de Woody, proto-skinheads que não necessariamente são skinheads, na verdade apenas uma turma de jovens querendo se divertir, sem discursos racistas ou brigas, apenas pequenos vandalismos. O problema começa quando Combo, um antigo skinhead e "amigo" de Woody sai da cadeia e reencontra a turma, agora ele esta mais convicto dos "ideais" sh e prega fervorosamente ao pequeno bando. Shaun, apenas um garoto cheio de rancor pela morte do pai, assume estes ideais - e sofre as consequências disso.
O que eh interessante no filme (alem da otima atuacao dos atores) eh a ambientacao e os lados pessoais dos personagens mostrados, bem como em A forca branca, os momentos mais "humanos" dos skins são mostrados. Recomendado.

Sempre se escuta falar desses movimentos, ainda que hoje seja bem pouco ate, mas eh difícil conceber essas ideias raciais em um mundo como o de hoje, com pessoas de toda a parte indo e vindo e a miscigenação cada vez mais frequente. Nunca entendi esse fanatismo, acho que eh a sensação de pertencer a algo, de estar com quem não te machuque. Devem ser os pequenos Shauns pelo mundo que vez por outra entram nesses movimentos, mas quem deveria ser combatido antes de tudo são os Combos da vida.

Perplexoes 1

Os fatores fora de nosso controle na vida dependem um pouco de sorte. E paciência. Em qualquer lugar pode-se ser feliz ou infeliz, pode-se ter uma vida neutra e tranquila fazendo um trabalho detestável ou um inferninho diário fazendo um trabalho de sonho. Ontem eu falava disso, do que eu entendi alguns meses atrás. As vezes eh questão de tempo. E sorte, se você acredita nisso.

Eh bem difícil chamar alguém de amigo em um lugar completamente estranho. Na cidade onde você vive, normalmente você sabe da cultura local e consegue se esquivar de coisas nocivas com um pouco de bom senso. Quando você muda, a historia eh outra. Outra cidade, outro sotaque ou língua, outra cultura. Quem eh seu amigo? Quem eh de confiança? Tenho toda essa na humanidade, afinal de contas? Depende muito. Se for ingenuo demais, a queda pode ser grande e feia e as licoes duras (justamente pela falta de ceticismo, as vezes um coração parcialmente endurecido dura mais tempo que um macio). Se for fechado demais, perde-se muito - pra não dizer quase tudo.

O importante mesmo eh entender que não importa onde você viva, temporariamente ou permanentemente, as possibilidades são virtualmente as mesmas de se encontrar gente legal e de se divertir, o que diminui eh o leque de opcoes e a velocidade em que as coisas podem acontecer. Eu levei quase um ano pra encontrar gente (japoneses) que "falasse a minha língua", que me mostrasse que a falta de habilidade idiomática não eh nenhum empecilho pra comunicação. São aquelas coisinhas que você sabe, repete pros seus amigos e encara com toda a lógica do mundo a seu favor, mas que são de fato, difíceis de encarar quando acontecem. Como num acidente, em que você sabe que não deve perder a calma, mas o seu coração teima em tentar sair pela sua boca e correr pela avenida.

Mas o contrario também confabula pra que a descrença na humanidade persista ou mesmo aumente. Eh tão fácil encontrar gente fútil e sem conteúdo aqui quanto em Manaus ou São Paulo ou Belo Horizonte. Acho que a vida deve ser cavar um tesouro, procurar a ilha com o X no mapa antes, e abrir o baú antes de morrer, pra ver o que tinha dentro, e la dentro tinha a sua historia todinha, desde que conseguiu o mapa pra chegar la. Engraçada essa sensação.